23 de agosto de 2014

ESBARRÃO DANOSO

Fui dormir com o seu rosto na memória. Não pude esquecer a graça que me busca quando mostra o sorriso que tem. Me prende e me leva diretamente aos seus olhos, que misturam mistério e ternura por trás da atenção que os afazeres impõem. Já deve ter reparado meu embaraço ao te fazer o pedido. Perco-me na aflição de tentar estender o nosso contato e de te dar uma satisfação imediata, objetiva. Nem imagina o calor que me causa notar parte do seu cabelo escapando da presilha, desconfigurando o arranjo original. Os detalhes da sua espontaneidade... Sortudo são os que podem. Nem mesmo o ar de cansaço e o fim de dia movimentado roubam-lhe a doçura. Sempre volto para casa com alguma tristeza. Sinto por não termos nada, além dos rápidos minutos sem paz. Minha vontade é a de te dizer coisas as quais sei que jamais ouviu. Queria te levar para uma tarde só nossa, em um dia que nos conduzisse noite adentro. Me dói essa distância. Me corrói esse desejo que não me larga nunca, desde a primeira vez em que esbarrei a distração em você.
 
Henrique Inglez de Souza

12 de agosto de 2014

SÚBITO SURTO

Larguei tudo o que estava fazendo e saí andando. Deixei o computador ligado, o arquivo em que trabalhava aberto, o celular na mesa, e acho que a impressora funcionava quando cruzei a porta. Algo me desconectou completamente do que costumamos etiquetar como correria rotineira. Sei lá, me bateu uma imensa vontade de vida. Saí do jeito que estava, independentemente se com a aparência boa ou desordenada pelo avançar do expediente. A carteira continuava no bolso. Disso eu sei, porque nunca a tiro de lá.
 
Permiti-me o luxo de apenas respirar, sem pensar no tempo restante de um prazo apertado ou no que diria para explicar qualquer problema. Foi como se houvesse um blackout geral na região do cérebro que acumula e cuida das preocupações. Devia ser uma ou, no máximo, duas da tarde. O sol ainda fervia aqui embaixo, mas não dei a mínima. Continuei andando, andando, andando... Alguns na rua me olhavam com espanto, inveja enrustida (talvez), e outros passavam com a exata alienação que me tomava o rosto.
 
Ao desviar de um buraco na calçada, reparei que suava em bicas e que já apareciam partes ensopadas da camisa. Arregacei as mangas, desabotoei os dois primeiros botões na altura do pescoço e pronto. Era o máximo de interferência que liberava ao impiedoso calor. Nada me abalava! Não que eu estivesse decidido numa meta ou desafiando padrões. Devia ser justamente o contrário, pois fui pego por um súbito surto de indiferença. As únicas vontades no peito resumiam-se a sentir o vento na pele, ouvir os sons que me cercavam e os odores de onde atravessava os dias.
 
"Caramba! Tô superatrasada! Aguenta aí, que já tô chegando", disse em voz alta uma moça, toda bonitona em seu traje executivo e com um perfume gostoso. Ela andava apressada, falando ao celular. Vinha logo atrás de mim, e passou como bala disparada até entrar em um táxi. Assisti ao seu drama tal qual um intruso visitante de férias naquele mundo. Acho que a minha razão havia sido transferida para os pés, porque só queria saber de caminhar.
 
Ao avistar uma galeria, entrei numa dessas megastores, ávido pela seção de discos. Vasculhei com água na boca cada título, cada capinha, transitando por estilos variados. Dos que tive chance, ouvi trechos, canções inteiras. Regressei a épocas distantes na carona de faixas para mim especiais. Encontrei até álbuns que dificilmente se vê hoje em dia nas lojas. "Quer ajuda?", um vendedor perguntou. Agradeci com um sorriso que me deixou pasmo pela simpatia que jurava ter perdido. Não faço ideia de quanto tempo fiquei ali, mas sei que foi bastante.
 
Voltei para a rua com uns quatro CDs numa sacolinha plástica. Comprei sem ver o preço. Sorria de orelha a orelha, e isso cobria os custos folgadamente. O sol já havia perdido a braveza ardida, mas mantinha a quentura recobrindo a cidade. Senti a boca seca e uma sede pungente. Dobrei a esquina, dobrei a seguinte, percorri algumas quadras e, enquanto esperava o sinal de pedestres abrir, avistei um convidativo boteco. Parei por lá e escolhi um banco no balcão para me sentar.
 
Quis ficar admirando o movimento do lado de fora. Buzinas de carros e de motos misturavam-se às dos ônibus e aos toques de celulares. Vozes de timbres variados, risada, grito, murmúrio, choradeira, latido... Ao fundo, uma música brega encorpava o ambiente. Idas e vindas sem a menor importância para mim distraíam as minhas íris desinteressadas. Que meio de semana mais atípico aquele!
 
Pedi uma cerveja bem gelada e uma porção de amendoim sem casca, a combinação perfeita! O gole inicial desceu leve, refrescante e saboroso, mantendo-me com as pálpebras fechadas e a cabeça inclinada para trás. Soltei um sonoro e estendido "ahhhhh" de prazer. Hoje, busco fundo na memória, mas tenho dificuldade de resgatar uma ocasião em que apenas uma garrafa tenha sido consumida com tanto deleite – e saiba que sou daqueles que gostam de encher a cara pra valer. Mas bebi com parcimônia e ainda sob os efeitos do tal surto.
 
Continuei andando, vagando. Já era finzinho de tarde e começava a ventar meio friozinho. O pôr-do-sol promovia um espetáculo fora de série, ainda que por detrás da selva de prédios e do véu escuro de poluição. Não perdi um instante sequer. Parei onde estava e acompanhei até o fim, detalhe por detalhe – fiz, inclusive, um desejo assim que notei a primeira estrela no céu já anoitecido. O que será que pedi? Não me lembro mais...
 
O mesmo sentimento indiferente que me tirou do trabalho me levou para casa. Cruzei a portaria do prédio em que morava sob o olhar espantado do funcionário que me deixou entrar. Eu estava suado, descabelado pelo vento e com o ar de quem passara o dia caminhando debaixo de sol ardente. Porém, trazia junto a maravilhosa atmosfera de quem vivera a vida na pele por quase seis horas. Tive esse privilégio indescritível, que pouco durou.
 
A tristeza me bateu repentinamente na forma de desânimo, pois sabia que a correria de sempre me aguardava às 7h30 na manhã seguinte. "Um colega seu passou aqui e deixou esse celular. Disse que você esqueceu no trabalho e pediu pra ligar pra ele quando pudesse", avisou-me o porteiro, entregando o aparelho. Em casa, estirado no sofá, lamentei com saudade. Sabia que a tarde que tivera fora um evento à parte. O surto finalmente havia se acabado.
 
Só não desabei por conta da disposição renovada que a experiência me rendera. Aproveitei esse combustível e retomei a rotina de urgências e caprichos danosos de uma outra vida, a que nos devora sem dó. Realmente, é preciso mais coragem que oxigênio para saborear as próprias essências.
 
 
Henrique Inglez de Souza

26 de julho de 2014

EGOFAGIA

Durante a saída apressada, a mulher deu um novo esbarrão no porta-retratos pendurado na parede. Já havia virado costume obsessivo esse encontrão. Acontecia constantemente. A qualquer minuto oportuno, este cruzava o caminho dela – ou o contrário. Embora o objeto ficasse na passagem, não favorecia o recorrente acidente de percurso. Certamente havia algo de espinhento naquela esquisita relação neurótica. Devia ser proposital, uma provocação. E nem adiantou mudarem de lugar a tal moldura. Parecia atração. Por trás das frestas iluminadas, ouvia-se comentários de uns acreditando ser egofagia.
 
O impacto a fazia parar e observar a imagem brevemente. Via a reprodução de uma mulher livre de si, realizada. A fiel rainha de um brilho que somente as majestades do próprio destino são capazes de ostentar. E a bela paisagem praieira ao fundo tornava a atmosfera gloriosa, invejável. Refletia os raios de vitória presenteados pelo sol. Cenário ideal para o corpo impecável que se desenhava através da blusa fina e no bronzeado da pele lisa. Era a perfeição feminina assumindo a sua mais acurada versão. Representava um momento de ápice, de realização pessoal e emocional. Um total apogeu individual da figura sorridente capturada.
 
Nas mãos da que segurava a moldura, contudo, havia predicados demais ao pouco que sua cabeça aguentava suportar. Inveja e raiva cultivada logo deixavam os poros na forma de um suor quase seco. Borrifava a intransigência salgada que produzia com as atitudes inseguras do dia a dia. O silêncio ali mantido era até sonoro. As palavras mais sórdidas e obscuras saíam mudas a cada piscada das pálpebras carregadas de maquiagem escura. Apesar dos rápidos minutos dedicados à imagem, ela caçava detalhe por detalhe. Já sabia de cor todos eles, e penalizava-se pelo trabalho de ter apanhado o objeto do chão. Mas apanhava e o recolocava no prego.

Seus pensamentos estavam infectados pelo ódio compulsivo. Doía demais ver aquele rosto eternizando alegria por trás do vidro fino. Tinha um sorriso sem ressalvas e abusando do alto-astral. A roupa também incomodava. Inspirava beleza e leveza radiantes, exatamente o oposto de seu visual. Esta trajava-se num estilo desinteressante e apagado (e sabia disso). Dava forma ao mau hálito mimado que vinha com as colocações ranzinzas em que se especializara. Tal contraste revelava por onde corria a peleja: no terreno da admiração versus admiradora invejosa. Gerava um rasgo no estômago que deixava escorrer a acidez venenosa de quem quer se apoderar do que não lhe serve. Resultava, enfim, numa sinistra doença de mente fraca que se julga forte o suficiente.

"Você não percebe? Está se afundando mais e mais. Não adianta se prender a quem jamais voltará", tentou alertar uma prima próxima. "Supere e siga em frente, querida! É o melhor que faz! Está se acabando sem se dar conta, mas nós, que estamos de fora, enxergamos nitidamente a sua decadência. Estamos preocupados" – ambas olharam-se seriamente. Arriscou novamente: "Olha, tem um velhinho que fica na frente do salão em que faço as unhas que solta sempre uns pensamentos bonitos. Uma vez, ele me disse um que adorei, e que acho que serve para você: 'Leite derramado só atrai barata e formiga, além de causar mau-cheiro'. Ah, e tem outro: 'Daqui só saem verdades. Verdades, e algumas bobagens que a minha tolice insiste em plantar'. Sei lá, de repente, é hora de parar de plantar tolices". A mulher, porém, agiu como rocha na ventania e desconversou com um irritante falso bocejar.

(...)
 
Zelando pela saúde da filha, a mãe retirou o porta-retratos da parede definitivamente e o guardou numa gaveta. Não disse nada. Simplesmente fez, depois de observar à distância o sofrimento dela. Cansou de ver aquela tortura se repetir sem parar. Até mesmo a senhora, experiente de vida, chorava escondida. Sentia uma pressão aguda no espaço vazio deixado em seu ventre pela criança que não soube crescer e que virara a adulta perdida de volta em casa. A frágil setuagenária fingia paz aos demais a fim de estancar a agonia impotente que lhe tomava. Daí a atitude de interromper os encontrões. Um passo em falso de sua parte, que fique claro.
 
"Por que fez isso, mãe? Porra!", descontrolou-se, rebelde. "Você acha que não consigo desprezar uma merda dessa? Foda-se essa foto! É só escolher outro lugar para pendurar essa porcaria que não serve pra nada – nem enfeitar, enfeita! Ponha num canto que não fique na passagem da gente e pronto". Foi uma discussão feia. Mesmo assim, apesar do entulho afetivo despejado, a braveza afiada retera a camada mais podre. Uma porção de mal que nem câncer conseguia dar conta. Era um reflexo mínimo de amor, pois ela já havia aprendido a lição de que o diabo mora nas maçanetas e não atrás das portas trancadas.
 
Os desentendimentos arrastaram-se por uma semana completa. Exausta, a senhora recolocou o maldito porta-retratos no prego. "Problema é seu! Desisto!", desabafou. Parecia o desfecho de uma séria crise de abstinência. E foi rápido até o próximo esbarrão e o consequente ritual de sempre. Só de contar o acontecido me dá raiva daquela sofredora gratuita. Sela a mensagem que me vem à cabeça neste momento: o medo é a farra entre a preguiça e a ignorância, cuja ressaca te aprisiona em si próprio e te deixa relutante e deformado diante do espelho.
 
Resistente em admitir os próprios erros, a mulher vivia no desgastante ciclo do querer sem entender o quê, mas precisando de. Com cara amarrada, simpatia de necessidade e incompetência exposta, seu humor cambaleava. Para ela, era um fardo encarar a vistosa diferença entre a vida que levava e a daquela estampada na foto. Essa era a grande verdade por trás do nó. Mas ainda havia algo de pior: devastava mortalmente a sua alma saber que ambas eram as mesmas pessoas.
 
 
Henrique Inglez de Souza

11 de julho de 2014

ANJO ABALADO

É uma sensação indescritível. O fundo dos olhos vidrados guardava um brilho fraco. Mais ou menos como o último foco de brasa nas cinzas. Um calor incapaz de recuperar chamas intensas. E havia uma mensagem telegrafada, eu sei que havia! Vinha na mudez séria e amedrontada da expressão infantil. Um horripilante aspecto de cansaço que deformava o encardido rostinho inocente. Sem qualquer opção realizável, fiquei apenas remontando o que lhe privavam dali pra sempre. O que jamais viria. Pude sentir o impacto avassalador com o qual aquele peito tão pequeno era atingido. E tenho certeza de que ela me identificou – essa é a parte mais dolorida. Seu pedido de socorro me buscava no arregalo sem lágrimas que sustentava. Superava até a fome mal saciada com a migalha de pão velho na mão miúda. Mas de nada me adiantava a nobreza de uma divina missão sem o real dom celeste da proeza. Chorei de raiva e desespero. Embrulhou-me ver tanta magreza vestindo a alma vencida, tanto sofrimento sem cura nem fim. Aos demais, juntaram a criança e seu resto de fôlego, gasto com fé em mim. Sumiram na poeira podre que o homem é capaz de criar a si e aos seus semelhantes. Não quero e não posso continuar entre eles. Sei que jamais me esquecerei do pesadelo que vi, chamado crueldade. Imploro por Sua clemência!
 
 
Henrique Inglez de Souza

10 de julho de 2014

DUAS VERDADES

"Lutem os bravos, sigam os fortes, e que o vento empurre a aurora dos tempos! Façam uso da melhor e mais poderosa arma que carregamos, o amor", gritava o desesperado à beira da ponte dos desapegos. "Costurem as feridas e deixem as cicatrizes sangrando até secarem. Não há frio imbatível nem calor realmente insuportável. Entre a dor e a paixão está a lâmina afiada da espada que nos corta diariamente. Não se surpreendam pela agressividade das minhas palavras! Têm pontas de doçura também... O vinho preenche a alma com o teor de coragem que falta a sábios e covardes - nem a um, nem a outro. A ambos! Mente o descrente de palmas coladas que junta os pés para afirmar lealdade aos demais. Engana-se quem conta com o amparo dos braços que não saem do próprio tronco. Existem duas realidades: a do lado de fora e a que os nossos olhos criam." Ninguém fez nada. Não havia o que ser feito no curto espaço de segundos que aumentava a nossa distância em relação ao coitado. Impotentes, apenas observamos seu corpo despencar sem cor rumo ao caos que era só seu, mas que também nos levava algo de bom embora.
 
 
Henrique Inglez de Souza

1 de julho de 2014

DENSO, TENSO, INTENSO

Ela tenta fugir de mim, mas eu sempre dou o meu jeito e descubro onde está. Hoje de manhã, por exemplo, escolhia frutas e verduras com você, na quitanda de costume. Foi a surpresa boa do dia, e aproveitei ao máximo. Parei do outro lado da rua, meio atrás de um poste, só para admirá-la de longe na sua essência de mulher desarmada. Sem maquiagem, sem produção, o brilho natural lhe arranca ainda mais encanto. Provoca a minha vontade desenfreada, o meu te-quero-tanto. Mas, então, por um instante, achei que tivesse me visto. Ajeitou o cabelo de maneira tímida e olhou para o lado, em minha direção. Temi perder a espontaneidade doce da ocasião. Todavia, logo voltou ao que contigo fazia, tranquila e sem perigo. Era só o desejo me pregando gracejo a fim de lembrar que estava atrasado para a vida... Não dei a mínima a isso! Ignorei e continuei ali. Nada superava a deixa de saborear um sentimento tão tenso quanto intenso. Fiquei imóvel, entregue a ela e à sua crua leveza. Esperei saírem juntas, você e a sua beleza.


Henrique Inglez de Souza

30 de junho de 2014

DESGRAÇADO

"Você acha que conhece o sentido de 'desgraçar a vida'?", disse ao bandido que o abordava com um revólver. Irritado, o marginal esbravejou: "Cala a boca, porra! Tô pouco me fodendo pra isso. Dá aqui logo essa merda, senão te meto uma bala". Fazendo gestos discretos, a vítima arrancou a correntinha que usava e disse: "Por mim, tudo bem! Não me importaria em morrer de novo". Ambos estavam na frente de um bar, onde ninguém conseguia acreditar naquela total falta de senso de perigo. O senhor do caixa chamou a polícia escondido. "Tome, pegue o pingente", esticou o braço, abrindo a mão. O ladrão ameaçou apanhar, mas hesitou. Perdeu a firmeza, ficou visivelmente agitado. O estranho homem deixou o objeto cair no chão de propósito e partiu tranquilamente. Partiu como o condenado que sorri indiferente à frieza do olhar de seu carrasco antes da execução. Quando os policiais apareceram, o criminoso estava sentado ao lado da arma, que não usou. Tentava conter as mãos trêmulas e repetia: "eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele..." Foi levado embora em choque. A correntinha permaneceu no chão por dias.
 
 
Henrique Inglez de Souza