11 de julho de 2014

ANJO ABALADO

É uma sensação indescritível. O fundo dos olhos vidrados guardava um brilho fraco. Mais ou menos como o último foco de brasa nas cinzas. Um calor incapaz de recuperar chamas intensas. E havia uma mensagem telegrafada, eu sei que havia! Vinha na mudez séria e amedrontada da expressão infantil. Um horripilante aspecto de cansaço que deformava o encardido rostinho inocente. Sem qualquer opção realizável, fiquei apenas remontando o que lhe privavam dali pra sempre. O que jamais viria. Pude sentir o impacto avassalador com o qual aquele peito tão pequeno era atingido. E tenho certeza de que ela me identificou – essa é a parte mais dolorida. Seu pedido de socorro me buscava no arregalo sem lágrimas que sustentava. Superava até a fome mal saciada com a migalha de pão velho na mão miúda. Mas de nada me adiantava a nobreza de uma divina missão sem o real dom celeste da proeza. Chorei de raiva e desespero. Embrulhou-me ver tanta magreza vestindo a alma vencida, tanto sofrimento sem cura nem fim. Aos demais, juntaram a criança e seu resto de fôlego, gasto com fé em mim. Sumiram na poeira podre que o homem é capaz de criar a si e aos seus semelhantes. Não quero e não posso continuar entre eles. Sei que jamais me esquecerei do pesadelo que vi, chamado crueldade. Imploro por Sua clemência!
 
 
Henrique Inglez de Souza

10 de julho de 2014

DUAS VERDADES

"Lutem os bravos, sigam os fortes, e que o vento empurre a aurora dos tempos! Façam uso da melhor e mais poderosa arma que carregamos, o amor", gritava o desesperado à beira da ponte dos desapegos. "Costurem as feridas e deixem as cicatrizes sangrando até secarem. Não há frio imbatível nem calor realmente insuportável. Entre a dor e a paixão está a lâmina afiada da espada que nos corta diariamente. Não se surpreendam pela agressividade das minhas palavras! Têm pontas de doçura também... O vinho preenche a alma com o teor de coragem que falta a sábios e covardes - nem a um, nem a outro. A ambos! Mente o descrente de palmas coladas que junta os pés para afirmar lealdade aos demais. Engana-se quem conta com o amparo dos braços que não saem do próprio tronco. Existem duas realidades: a do lado de fora e a que os nossos olhos criam." Ninguém fez nada. Não havia o que ser feito no curto espaço de segundos que aumentava a nossa distância em relação ao coitado. Impotentes, apenas observamos seu corpo despencar sem cor rumo ao caos que era só seu, mas que também nos levava algo de bom embora.
 
 
Henrique Inglez de Souza

1 de julho de 2014

DENSO, TENSO, INTENSO

Ela tenta fugir de mim, mas eu sempre dou o meu jeito e descubro onde está. Hoje de manhã, por exemplo, escolhia frutas e verduras com você, na quitanda de costume. Foi a surpresa boa do dia, e aproveitei ao máximo. Parei do outro lado da rua, meio atrás de um poste, só para admirá-la de longe na sua essência de mulher desarmada. Sem maquiagem, sem produção, o brilho natural lhe arranca ainda mais encanto. Provoca a minha vontade desenfreada, o meu te-quero-tanto. Mas, então, por um instante, achei que tivesse me visto. Ajeitou o cabelo de maneira tímida e olhou para o lado, em minha direção. Temi perder a espontaneidade doce da ocasião. Todavia, logo voltou ao que contigo fazia, tranquila e sem perigo. Era só o desejo me pregando gracejo a fim de lembrar que estava atrasado para a vida... Não dei a mínima a isso! Ignorei e continuei ali. Nada superava a deixa de saborear um sentimento tão tenso quanto intenso. Fiquei imóvel, entregue a ela e à sua crua leveza. Esperei saírem juntas, você e a sua beleza.


Henrique Inglez de Souza

30 de junho de 2014

DESGRAÇADO

"Você acha que conhece o sentido de 'desgraçar a vida'?", disse ao bandido que o abordava com um revólver. Irritado, o marginal esbravejou: "Cala a boca, porra! Tô pouco me fodendo pra isso. Dá aqui logo essa merda, senão te meto uma bala". Fazendo gestos discretos, a vítima arrancou a correntinha que usava e disse: "Por mim, tudo bem! Não me importaria em morrer de novo". Ambos estavam na frente de um bar, onde ninguém conseguia acreditar naquela total falta de senso de perigo. O senhor do caixa chamou a polícia escondido. "Tome, pegue o pingente", esticou o braço, abrindo a mão. O ladrão ameaçou apanhar, mas hesitou. Perdeu a firmeza, ficou visivelmente agitado. O estranho homem deixou o objeto cair no chão de propósito e partiu tranquilamente. Partiu como o condenado que sorri indiferente à frieza do olhar de seu carrasco antes da execução. Quando os policiais apareceram, o criminoso estava sentado ao lado da arma, que não usou. Tentava conter as mãos trêmulas e repetia: "eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele..." Foi levado embora em choque. A correntinha permaneceu no chão por dias.
 
 
Henrique Inglez de Souza

28 de junho de 2014

SEM REMETENTE

Voltando para casa de cabeça quente, avistou um envelope jogado na calçada. Estava próximo a uma lixeira. Sua aba balançava ao vento fraco que passava na hora, razão suficiente para a curiosidade agir. Havia o recado de alguém para sei lá quem. Achou a mensagem meio piegas, mas acabou guardando o papel num lugar especial. Dizia o seguinte: "o mundo não são as mil maravilhas que uns pregam a todo custo, mas também não é o lugar podre e fétido do discurso de outrem. É um pouco dos dois. Tem dor, tem paixão, sabor e ilusão. É um misto de alívio e de falta de chão. Tem calor e rasteira, rancor e perdão. Então, cabe a você usar a sua independência, a sua plenitude como o indivíduo pensante que é, e escolher por qual caminho quer seguir. A felicidade não é uma região distante e inacessível que, uma vez encontrada, fará de tudo perfeito. Quem persegue isso não vê direito. Ignora as alegrias diárias que, de fato, fazem alguém feliz. Cuidado, pois o banal está aí para nos confundir e enganar! Então, se o coração partir e a alma sangrar, lembre-se de considerar a cura, pois o tempo sutura. Se a mente adoecer, aqueça a alma onde paira o prazer e a calma. Remédio tem, mesmo que não acredite em si mesmo ou em ninguém. Conte comigo sempre! E não precisa nem me chamar... Eu estarei junto de você em todas as suas boas atitudes".
 
 
Henrique Inglez de Souza

24 de junho de 2014

A MOÇA NO RETRATO

Durante a saída apressada, deu um novo esbarrão no porta-retratos pendurado na parede. Já havia virado um costume obsessivo esse encontrão. Acontecia constantemente. Devia até ser proposital, uma provocação. O impacto a fazia parar e observar a imagem brevemente. Inveja e raiva cultivada deixavam seus poros na forma de um suor quase seco. Borrifava a intransigência salgada que produzia com as atitudes inseguras. Apesar dos rápidos minutos dedicados, caçava detalhe por detalhe. E se penalizava pelo trabalho de ter apanhado o objeto do chão. Mas apanhava e o recolocava no prego. Doía demais ver aquele rosto eternizando alegria por trás do vidro fino, com um sorriso sem ressalvas e abusando do alto-astral. A roupa também incomodava. Estampava beleza e leveza radiantes, o oposto do visual dela, carregado e apagado. Sua cabeça vivia no desgaste cíclico do querer sem entender o quê, mas precisando de. Com cara amarrada, simpatia de necessidade e agonia latente, seu humor cambaleava. Era um fardo encarar o contraste entre a vida que levava e a daquela pessoa na foto. Devastava ainda mais a alma da moça saber que ambas eram as mesmas.
 
 
Henrique Inglez de Souza

23 de junho de 2014

UMAS LINHAS PRA VOCÊ

Fiz umas linhas pra você
Pensando no sabor da sua graça
No calor de quando me abraça
É a vida que nos chama
Segura e sem drama
Só lampejos de um futuro bacana
Escrevi por nada demais
Era só um alô, saudade pequena

Mas ganhou vida, criou poesia
Virou poema
 
 
Henrique Inglez de Souza