20 de setembro de 2014

TUDO BAGUNÇADO

A bagunça sobre a escrivaninha estende-se pelo quarto. Ganha o chão, corredores e se espalha pela sala. A bagunça manifesta-se de forma contínua, quase sem fim. Fico admirado com a sua rápida multiplicação. Quanto mais tento contê-la, mais parece que aumenta. Acontece nos instantes vagos de distração profunda. É uma batalha perdida querer dominá-la e extingui-la. A bagunça já faz parte do cotidiano. Virou meu atual endereço, o lugar onde vivo. É o que sempre me dizem e no que acredito piamente. As pessoas horrorizam-se, dão conselhos, reparam, mesmo que eu peça o contrário. Têm lá alguma razão. Porém, é na aparente falta de critério que me encontro. Até apelidei o murundum de organizado. Os outros não entendem, discordam, mas eu não ligo. Acostumei-me de tal forma que, sem ela, penso na minha vida virando um caos total. Ando até com uma opinião diferente. Já não me incomodo tanto assim. Digo isso do fundo do meu coração, onde está a outra bagunça, a que você deixou quando me largou de vez. Dessa, sim, não faço a menor questão, e me esforço diariamente para arrumá-la em definitivo. É complicado, me toma um tempão! Reclama da zona em casa quem vira as costas e vai embora. Só que esses são os mesmos que jamais verão a minha real bagunça. Pois somente os que têm coração sabem o quão pandemônico é tê-lo partido em migalhas incorrigíveis de amor.
 
 
Henrique Inglez de Souza

16 de setembro de 2014

ESSE DESCONTROLE IMPERATIVO

Jamais soube o sentido de estar hipnotizado. Inventei algumas possibilidades, mas não é a mesma coisa. Isso só mudou num pedaço de noite recente. Estava em um bar com o pessoal, quando avistei uma loira a duas mesas de distância. Tinha os cabelos cortados na altura do pescoço, um sorriso meio tímido e ar tranquilo. Entretida com as amigas, não me notou, e provavelmente nunca saberá do que foi capaz de causar em mim. Sua blusa azul-marinho trazia um generoso decote, que ganhava ainda mais expressão graças aos seios palidamente lindos. Eles possuíam um volume sem exagero nem falta, perfeito. E, reprimidos pela pressão das alças, me arranhavam a libido com uma precisão insuportável. No descontrole em que caí, mal conseguia me mexer. Os peitos tocavam-se delicadamente, gerando uma sombra bem escura e delineada. Uma obra saída, sem dúvida, das mãos hábeis de um anjo artista. Como ignorar ou não ser indiscreto? O mínimo de consciência que enfrentava o egoísmo de meus olhos desabava aos pés do desejo imperativo. Eu queria mais do que a sanidade podia cobrir. Só recuperei as faculdades mentais depois de a mulher ir embora - inquieto e com a taquicardia da intensidade de quem esteve em transe.
 
 
Henrique Inglez de Souza

13 de setembro de 2014

ESCADARIA DE OSSOS

Um dia vamos enterrar nossos pais, nosso passado. Libertaremos os amores mal resolvidos e as frustrações também. Juntaremos o que não nos serve mais em uma caixa de papelão da cor do rancor. Lacraremos o imbróglio como uma encomenda endereçada ao esquecimento. Caberão ali as lágrimas despejadas e as que conseguimos esconder. Chegará o momento em que os sonhos deixarão o sono dormir em paz para ganharem o mundo dos ambulantes, da realidade firme e pisada. E a piada, juro, só terá graça se a tragédia vier. Só daremos risada se for em alto e bom tom, se nos arrancar o que há de mais sórdido. A pureza, oras, também produz a sua sujeira, que acumula e recalca! Ela decalca nossa personalidade, e assim disfarçamos a dor que agarra as vísceras. Quem sabe teremos as respostas que buscamos; quem sabe acertaremos as perguntas às respostas que temos. Essa incerteza danada ainda manda no futuro. Mas seguiremos distribuindo miúdos... E diante de nossos ossos expostos, pensarão que estamos mortos. A gente, entretanto, saberá que é apenas descanso redobrado.


Henrique Inglez de Souza

12 de setembro de 2014

MAIS QUE 50 PRATAS

Na viagem de volta, enquanto me acomodava no ônibus, reparei uma garrafa de água vazia dentro de uma sacola plástica, junto com uma revista enrolada. Estavam presas pelo elástico da parte traseira da poltrona seguinte à minha, usado normalmente para esse tipo de coisa. Somente depois de uma hora de viagem voltei a colocar meus olhos naquilo. Sem ter o que fazer nem música para ouvir, me rendi à revista. As páginas traziam mais tolices que informação, mas como passatempo serviam. Eu andava entediado. Entediado de forma ampla e aflitiva. A vida ia bem, mas parecia estacionada numa mesmice corrosiva. Portanto, qualquer coisa que me trouxesse distração, breve que fosse, era bem-vinda. Todavia, algo extra aconteceu. Uma nota de 50 reais despencou do meio das folhas. E antes de colocá-la na carteira, encontrei um manuscrito a caneta na cédula. Dizia algo que ficou remoendo em meu estômago por dias: "As chances boas na vida aparecem com a mesma frequência que uma surpresa como esta cai em suas mãos. A diferença é que elas transformam e duram muito além do dinheiro. A mesma curiosidade e disposição que te levaram a encontrar essas 50 pratas podem te empurrar nas oportunidades. Basta agir!".


Henrique Inglez de Souza

9 de setembro de 2014

PALAVRAS MUDAS

Você duvida de uma verdade que é absoluta. Mas existe um canto secreto, um reduto, onde somente nós vamos. Ninguém mais sabe como chegar. Fica perdido em nossos desejos – somente neles! Lá os beijos têm sabor de safadeza insana e a imagem melada que me veio agora. Ganham razão na total falta de noção, nos horários menos previsíveis. São demorados e complexos, trazem perdição. Fazem paradas estratégicas e cheias de texturas molhadas, que provocam labaredas irremediáveis. Arrepiam o seu cangote, viram os meus olhos. E é imerso nesse ambiente que conhecemos o significado das palavras. Elas vêm e vão sem produzir um som sequer. Saem mudas, mostrando finalmente a sua real imensidão. Letras e impulsos combinam-se em mordiscos desconcertantes, grafados no calor insuportável das palmas das mãos. Esse é um jardim completamente silencioso e inacessível aos outros. É o lugar em que reinam o tato dos corpos e os segundos impulsivos do jorrar que a entrega produz. Não tente reagir. Essa vontade não tem dono nem controle.
 
 
Henrique Inglez de Souza

23 de agosto de 2014

ESBARRÃO DANOSO

Fui dormir com o seu rosto na memória. Não pude esquecer a graça que me busca quando mostra o sorriso que tem. Me prende e me leva diretamente aos seus olhos, que misturam mistério e ternura por trás da atenção que os afazeres impõem. Já deve ter reparado meu embaraço ao te fazer o pedido. Perco-me na aflição de tentar estender o nosso contato e de te dar uma satisfação imediata, objetiva. Nem imagina o calor que me causa notar parte do seu cabelo escapando da presilha, desconfigurando o arranjo original. Os detalhes da sua espontaneidade... Sortudo são os que podem. Nem mesmo o ar de cansaço e o fim de dia movimentado roubam-lhe a doçura. Sempre volto para casa com alguma tristeza. Sinto por não termos nada, além dos rápidos minutos sem paz. Minha vontade é a de te dizer coisas as quais sei que jamais ouviu. Queria te levar para uma tarde só nossa, em um dia que nos conduzisse noite adentro. Me dói essa distância. Me corrói esse desejo que não me larga nunca, desde a primeira vez em que esbarrei a distração em você.
 
Henrique Inglez de Souza

12 de agosto de 2014

SÚBITO SURTO

Larguei tudo o que estava fazendo e saí andando. Deixei o computador ligado, o arquivo em que trabalhava aberto, o celular na mesa, e acho que a impressora funcionava quando cruzei a porta. Algo me desconectou completamente do que costumamos etiquetar como correria rotineira. Sei lá, me bateu uma imensa vontade de vida. Saí do jeito que estava, independentemente se com a aparência boa ou desordenada pelo avançar do expediente. A carteira continuava no bolso. Disso eu sei, porque nunca a tiro de lá.
 
Permiti-me o luxo de apenas respirar, sem pensar no tempo restante de um prazo apertado ou no que diria para explicar qualquer problema. Foi como se houvesse um blackout geral na região do cérebro que acumula e cuida das preocupações. Devia ser uma ou, no máximo, duas da tarde. O sol ainda fervia aqui embaixo, mas não dei a mínima. Continuei andando, andando, andando... Alguns na rua me olhavam com espanto, inveja enrustida (talvez), e outros passavam com a exata alienação que me tomava o rosto.
 
Ao desviar de um buraco na calçada, reparei que suava em bicas e que já apareciam partes ensopadas da camisa. Arregacei as mangas, desabotoei os dois primeiros botões na altura do pescoço e pronto. Era o máximo de interferência que liberava ao impiedoso calor. Nada me abalava! Não que eu estivesse decidido numa meta ou desafiando padrões. Devia ser justamente o contrário, pois fui pego por um súbito surto de indiferença. As únicas vontades no peito resumiam-se a sentir o vento na pele, ouvir os sons que me cercavam e os odores de onde atravessava os dias.
 
"Caramba! Tô superatrasada! Aguenta aí, que já tô chegando", disse em voz alta uma moça, toda bonitona em seu traje executivo e com um perfume gostoso. Ela andava apressada, falando ao celular. Vinha logo atrás de mim, e passou como bala disparada até entrar em um táxi. Assisti ao seu drama tal qual um intruso visitante de férias naquele mundo. Acho que a minha razão havia sido transferida para os pés, porque só queria saber de caminhar.
 
Ao avistar uma galeria, entrei numa dessas megastores, ávido pela seção de discos. Vasculhei com água na boca cada título, cada capinha, transitando por estilos variados. Dos que tive chance, ouvi trechos, canções inteiras. Regressei a épocas distantes na carona de faixas para mim especiais. Encontrei até álbuns que dificilmente se vê hoje em dia nas lojas. "Quer ajuda?", um vendedor perguntou. Agradeci com um sorriso que me deixou pasmo pela simpatia que jurava ter perdido. Não faço ideia de quanto tempo fiquei ali, mas sei que foi bastante.
 
Voltei para a rua com uns quatro CDs numa sacolinha plástica. Comprei sem ver o preço. Sorria de orelha a orelha, e isso cobria os custos folgadamente. O sol já havia perdido a braveza ardida, mas mantinha a quentura recobrindo a cidade. Senti a boca seca e uma sede pungente. Dobrei a esquina, dobrei a seguinte, percorri algumas quadras e, enquanto esperava o sinal de pedestres abrir, avistei um convidativo boteco. Parei por lá e escolhi um banco no balcão para me sentar.
 
Quis ficar admirando o movimento do lado de fora. Buzinas de carros e de motos misturavam-se às dos ônibus e aos toques de celulares. Vozes de timbres variados, risada, grito, murmúrio, choradeira, latido... Ao fundo, uma música brega encorpava o ambiente. Idas e vindas sem a menor importância para mim distraíam as minhas íris desinteressadas. Que meio de semana mais atípico aquele!
 
Pedi uma cerveja bem gelada e uma porção de amendoim sem casca, a combinação perfeita! O gole inicial desceu leve, refrescante e saboroso, mantendo-me com as pálpebras fechadas e a cabeça inclinada para trás. Soltei um sonoro e estendido "ahhhhh" de prazer. Hoje, busco fundo na memória, mas tenho dificuldade de resgatar uma ocasião em que apenas uma garrafa tenha sido consumida com tanto deleite – e saiba que sou daqueles que gostam de encher a cara pra valer. Mas bebi com parcimônia e ainda sob os efeitos do tal surto.
 
Continuei andando, vagando. Já era finzinho de tarde e começava a ventar meio friozinho. O pôr-do-sol promovia um espetáculo fora de série, ainda que por detrás da selva de prédios e do véu escuro de poluição. Não perdi um instante sequer. Parei onde estava e acompanhei até o fim, detalhe por detalhe – fiz, inclusive, um desejo assim que notei a primeira estrela no céu já anoitecido. O que será que pedi? Não me lembro mais...
 
O mesmo sentimento indiferente que me tirou do trabalho me levou para casa. Cruzei a portaria do prédio em que morava sob o olhar espantado do funcionário que me deixou entrar. Eu estava suado, descabelado pelo vento e com o ar de quem passara o dia caminhando debaixo de sol ardente. Porém, trazia junto a maravilhosa atmosfera de quem vivera a vida na pele por quase seis horas. Tive esse privilégio indescritível, que pouco durou.
 
A tristeza me bateu repentinamente na forma de desânimo, pois sabia que a correria de sempre me aguardava às 7h30 na manhã seguinte. "Um colega seu passou aqui e deixou esse celular. Disse que você esqueceu no trabalho e pediu pra ligar pra ele quando pudesse", avisou-me o porteiro, entregando o aparelho. Em casa, estirado no sofá, lamentei com saudade. Sabia que a tarde que tivera fora um evento à parte. O surto finalmente havia se acabado.
 
Só não desabei por conta da disposição renovada que a experiência me rendera. Aproveitei esse combustível e retomei a rotina de urgências e caprichos danosos de uma outra vida, a que nos devora sem dó. Realmente, é preciso mais coragem que oxigênio para saborear as próprias essências.
 
 
Henrique Inglez de Souza