12 de abril de 2014

ORVALHO NOSSO

A gota que escorre do orvalho
É a mesma que refresca a alma
De quem sabe se refrescar
Do choro mudo que acalma
Lava quente, leva embora
 
É assim quando nos vemos
A gota sai e escorre
Caminha numa força que nos move
Rasga até o calor que nos sobe
É isso o que temos
Quando nos vemos
Sempre que queremos e somos
 
Eu e você, um e uma
O que o um faz para a outra
E o que a outra faz para o um
Juntos!
Sem pecado nem limite
Desejo em comum
 
Sua pele perfuma o beijo
E as mais das preciosas pérolas
Que brilham que só
Guardadas nos olhos
Rendidas, vendidas
Diante da gota escorrida
Que o orvalho mandou
 
 
Henrique Inglez de Souza

7 de abril de 2014

MEIO VAGO

Vaga, vagabundo! Vaga e vai fundo. Vaga surdo pelas horas vagas em busca do que é assunto. Vagarosamente avança. Anda a passos inseguros, culpados. Vagarosa dança, em que trança e transa na divagação vaga dos segredos jamais liberados. No fundo, só quer é vagar... Só quer mergulhar onde falha a vergonha de mais um dia vagal.

Servo e solto pelo quintal, espera o sinal falso do bem-te-vi. O piado vem, mas é a piada que fica. O pobre do pássaro passa sem saber que está trazendo o passado nas asas. Voa na ganância, na vacância, desentocado da própria ânsia. Vai apenas na cadência da santa paciência que, às aves, sobra aos montes e que, aos nossos, se desmancha aos trancos. Refresco, somente nas águas fétidas que animam as sarjetas nas noites de chuva brava.

Uma palavra surgiu cortante, rasgando a garganta seca de quem escreve na certeza vaga das tantas sentenças digitadas. Foi repentino, enquanto lamentava o prisioneiro livre o não feito que deixará do lado de cá quando partir para o lado de lá. O vagal do sujeito aproveita e se esconde no vagão descarrilado, onde sempre cabe uma mentira piedosa a mais. "Atire a primeira pedra quem nunca amou", declara a si mesmo, reafirmando o desleixo.

"Vaga, vagabundo! Vaga, mas não perca a extravagância que encoraja a sombra", é o conselho dum errante vagabundante escondido na memória. Ainda há, ao menos, dois cálices de vinho na garrafa. E são as últimas doses as que anulam o vágado de nossos anseios mais vagos. Vá ganhando voz, navegando a foz, desatando os nós... Vá de cada vez, mesmo que contigo esteja a sós!

Um dia verá que terá valido toda vaia despejada no vagalhão que agita vagarosamente as suas horas vagas. Essa sua vagabundice vagal, banal, animal, é também vital. Contudo, cuidado, pois atenção é como farofa ao vento! Na lerdeza que te empurra, desconfie do assovio vil que a ventania traz. Vem traiçoeiro pela fresta da janela, na vagareza que não se nota. Ao contrário do piado do bem-te-vi, esta cantarola a marola aflitiva que embrulha a morte. Se cair na cilada, só poderá vagar, e para sempre, na vaga que te espera no fundo da vala fria que a terra há de cobrir.


Henrique Inglez de Souza

6 de abril de 2014

CIMENTO FRESCO

A caminhada está correta. São os passos que têm saído tortos. Tento acertar o pé daqui, estico menos a perna ali, procuro alinhar o percurso, uso menos força e, então, intensifico para ver se faz alguma diferença. Nada adianta. Desconfio de que esteja indo realmente para frente. Bem estranho! Há paisagens pelas quais eu juro já ter passado mais de uma vez. Talvez esteja dando voltas acreditando seguir em linha reta. Será esse o traçado da vida?

Minutos adiante, percebi que o norte havia se perdido em alguma parada ali atrás. Considerei voltar e tentar encontrá-lo, o que talvez me economizasse tempo e fôlego futuros. Recuar pode até significar um atraso, mas, se for por um ajuste de rota, um acerto que impulsione com intensidade para frente, vale a pena. Fiquei pensando: por onde iria encontrar o norte: indo pelo sul, oeste ou leste? Timidamente ameacei me aventurar nessa história.

Há momentos em que a pisada demora a encontrar o chão. Dá uma leve angústia. Os crepúsculos me trazem beleza e uma incerteza alfinetante. Firmeza tem sido uma real fraqueza no terreno em que me encontro, mas eu insisto. Vou que vou a fim de não ficar parado nem de afundar completamente. Procuro um porto que me ofereça segurança, onde eventualmente haja descanso e algum alento. Tomar decisões com o gosto da calma ainda presente minimiza danos. É disso que preciso para me esclarecer perante o plano maior das ambições que cultivo, o qual se emperra na insuficiência de me motivar efetivamente (sua tarefa principal, ora!).

Ando preocupado, porque não quero deixar pegadas irregulares que me persigam depois. Sei que elas irão pelo faro e irão me encontrar rapidinho, livres de qualquer determinação minha. Então, tento evitar o que me tenta, compreende? Fujo daquela obscura garoa de tristeza que rodeia qualquer um de nós esperando um oportuno piscar de olhos. É assim que, de fato, aparece a tempestade cabulosa das enfermidades da mente. As marcas que pretendo deixar aos meus próximos são outras. Desenho, portanto, esperança na monotonia flácida e acinzentada persistente na calçada dos dias.

Trechos sólidos pelo percurso ajudam a me alimentar a perspectiva positiva. Engano o cansaço graças a eles. Dá, inclusive, para acelerar a caminhada. Não é muita coisa, mas aproveito e exerço o fio de otimismo ao qual me mantenho agarrado (e com cuidado, para não arrebentá-lo). "Espere um pouco, só mais um pouco! Estou terminando um capítulo. É outro, diferente daquele da noite passada. Não é alegre, mas tem menos sangue. Pode ser um bom sinal ou apenas sintoma da anemia que conquista o corpo. Espere, vai", insiste a minha já confusa consciência.

A dada altura, retruquei qualquer coisa em voz alta, como se os ventos conseguissem me ouvir. É fundamental persistir na realidade, minimamente que seja. Preciso recuperar o norte! A minha briga tentando acertar os passos produz delírios tensos os quais tenho que combater. Debaixo de um sol que nem a rapina aguenta, me vejo numa perseguição implacável de pensamentos agiotas. São a única companhia que tenho. Mas sigo do jeito que dá, pois quero ganhar tempo. As pegadas ainda demoram a encontrar o nível firme, ainda desafiam o meu equilíbrio.

Não há uma perspectiva confiável. Há somente ilusões que eventualmente se revelam próximas ao que acabamos vivendo. Vou cozinhando a reflexão que se faz apenas quando já é tarde ou perto disso. Me castigo pelas cagadas recentes e pela impotência de transformá-las, trabalhá-las ou evitá-las. E uma coisa te digo: não há nada como o privilégio da segunda chance e a sorte da terceira. Valorize isso! Quem brinca demais com a vida pode tropeçar no destino, essa criatura fria e bipolar.


Henrique Inglez de Souza

30 de março de 2014

COMPANHIA DE INSÔNIA

Estou novamente no sofá da sala. Já passa das tantas da madrugada. Acho que daqui a pouco é o Sol quem irá aparecer. Sinto exibir um aspecto lastimável no rosto cansado que agora carrego. Tem sido assim nesses dias passados. Fico quieto na cama, angustiado por uma animosidade de quem deixou pendências por falta de tempo hábil. Insisto no que realmente não virá até desistir e abandonar o quarto. Padeço do mal dos atormentados funcionais.
 
A luz do abajur na mesinha ao lado e alguns pernilongos irritantes são as únicas companhias que tenho. Não há diálogo falado nem vontades olhadas, embora perturbe a sanidade o som de vazio que escancara de cada fresta. O zumbido monótono dos insetos com sede de vampiro até inspira alguma distração, mas dura pouco. Tapas e palmadas violentas exterminam a ameaça dolorosa que representam. Sobram-me, nesse caso, apenas coçadas obsessivas, mecânicas. Talvez eu até considere fazer-me sangrar!
 
Só queria que o sono aparecesse para partir com ele. Pelo menos, por essa noite – ou por o que restou dela. Não é pedir demais! Se bem que, quando a agenda do dia seguinte começa cedo, os caprichos da mente rejeitam o relaxamento profundo. Vira uma disputa de quem decide, de quem arbitra a luta entre querer e poder. É uma questão que jamais tive a oportunidade de debater e chegar a um acordo justo comigo mesmo.
 
Reparei que em meu pequeno universo caótico a luz é uma companheira. Silenciosa, mas companheira. Não fala nada; em contrapartida me compensa a falta que se manifesta na hora de dormir varando fielmente as horas perdidas e os pensamentos distantes. É a melhor comparsa dos que planejam trapaças contra o tédio de um jeito heroico. Distrai os medos enquanto nos embrenhamos em desencargos mentais tendenciosos. E é aí que invejamos a felicidade do sono tranquilo, completo.
 
Mas volta e meia questiono se há realmente alguém que desfrute de um privilégio assim (o dormir bem) – não contando as crianças nutridas. Descansar navegando ininterruptamente pelos sonhos virou ouro nos tempos em que vivemos. Tornou-se restrito aos oásis alegres em que as coisas se alinham e tudo dá certo. São momentos escondidos pelo calendário do ano. Ocasiões em que até aquele vinho que sempre bebemos e que já nos cai enjoativo e ácido demais fica saboroso. Desce como mel e sobe feito garoa de esperança.
 
Não consigo avistar o relógio de onde estou. Agora, o abajur ao meu lado mostra-se cansado. Acompanha-me sem a mesma empolgação. Perdeu a sua vontade radiante diante do ambiente da sala, que se revela tenuamente. O breu permite o avançar da manhã e as silhuetas vão sendo detalhadas mais e mais. Senti a necessidade de tomar uma decisão. Levantei-me e fui fazer a barba.
 
Estava terrível no espelho. Fiquei parado diante de mim mesmo admirando a lonjura entre nós. Aquele refletido era um eu de agora confrontando quem eu queria de volta. Éramos duas mentiras escondidas na mesma carcaça. O do espelho, porém, levava a culpa sozinho. Foi o que misturou o que não devia com o que já passou e acabou construindo o próprio ideal do que deveria ser. Resultou numa sentença triste e sem apelações.
 
Na impaciência do mea-culpa, optei por tomar um banho gelado. Mas não bastaram a ducha nem a bucha ensaboada. A imundice que me rouba o sono continuou encardida. Iniciei, então, a moagem da minha gordice mental. Trabalhei as ideias adiposas que me pesam a consciência há tempos e que, por alguma razão que desconheço, não me esforço para perder. O processo se estendeu até o café da manhã que preparei na madrugada agitada.
 
Disfarça quem nega os próprios recalques e condena os fantasmas dos outros. A vida seria um prato raso demais para manter aquecida a sopa da coragem. A briga com a realidade tem que ser diária, e é o que mantém o mistério do sucesso do lado de lá do muro que o futuro nos ergue. O vapor do café quente me trouxe a lembrança de um palhaço esculhambado que vi numa estação do metrô de São Paulo. Eu voltava da farra e ele de um expediente frustrante. Ainda maquiado e paramentado, amargava nem 10 reais em moedas e uma nota baixa na caixinha que segurava.
 
Ficamos lado a lado esperando o mesmo transporte. Vencido pela vontade, soltei um comentário solidário: "Hoje foi fraco, hein, amigo? O público não te ajudou. Deve ser um golpe fatal para quem vive da boa-vontade dos outros". Com surpresa repentina transformada num sorriso defensivo, o homem dirigiu o olhar para mim e respondeu: "Não, imagine só! Morri, mas foi só por hoje". Ergui as sobrancelhas, representando um "Está certo, então". Cada qual virou seu rosto para frente e confirmamos o fim do assunto.
 
Entretanto, o circense de rua descobriu ter algo a acrescentar: "Não ligo, não! O artista é que nem gato... Ou melhor, é mais que gato. Morre e se reinventa para além das sete vezes. É uma rotina que leva a vida inteira. Digo, leva enquanto houver inspiração, enquanto houver interesse e força nas pernas. A fome é só a de vencer no que se deseja". Para não deixá-lo sem plateia, disse que iria pensar a respeito. "Isso, pense! Pense alto, mas fale baixinho. Não se sabe quem é que está escutando do lado de lá", completou.  As portas do vagão se abriram e entrei – sozinho. Da janela, o avistei na plataforma despedindo-se com a mão desocupada e a mesma falsa simpatia pintada com mentira na face maquiada.
 
(...)
 
Começou a chover aqui. A água vem chegando barulhenta e com intensidade. Parece bastante carregada. Me reconectou à realidade da madrugada sem sono. O tempo age de forma brusca, mal-humorada e raivosa. Trovoa com impaciência, contrariando a impressão que tive minutos atrás de que seria um dia ensolarado. Dá para avistar a cortina branca acinzentada lavando a cidade. Impiedosa, encharca o que vê pela frente: ruas, casas, prédios, pessoas, saudades, vontades e diachos. Os pássaros se escondem da ventania e as plantas celebram o refresco providencial. E eu, seguro não sei do quê, simplesmente busco diversão dentro da minha mesmice chata.
 
O sono finalmente chegou, mas trouxe junto o insuportável do despertador avisando eloquentemente a hora de acordar. Já estava de volta ao sofá da sala. O abajur permanecia aceso, mas sem qualquer importância no que se esforçava para iluminar. Desliguei-o, como quem descarta resto de comida quente e cara. Não sentia raiva nem desprezo pela companhia que não me servia mais. No silêncio que nos aproximava, sabíamos que voltaríamos a dividir as horas de insônia muito em breve. Assunto não faltaria.
 
 
Henrique Inglez de Souza

26 de março de 2014

TRÊS LINHAS

Sabe quanto cabe em três linhas? 
Somente poucas das palavras que se queira
E o sentimento de um amor para a vida inteira


Henrique Inglez de Souza

23 de março de 2014

A VIZINHA QUE NÃO SEI O NOME

Dorme. Dorme o sono da beleza
E eu distante dali
Sonhando o sonho da tristeza
Fico triste e calado...
Calado, mas admirado
Como pode isso?
É tanta qualidade nua
Minha rainha mor
Repousa a verdade tua
 
Quando ela dorme
Preguiçosa e segura
Meu coração de pedra
Se parte na quentura
Me rendo, remoendo
Como agride estar do lado de cá
Afogado em teu mar
Querendo e não podendo te amar
 
Doce é o gosto do desejo
Quisera eu provar do teu beijo
Tocar o que vejo
Sentir a tua pele pulsando na minha
Sentir de perto
O que me faz sentir de longe
Que inveja da tua cama
Que me esnoba e me chama
Oferecendo esse calor
Pensando que me engana
 
Mas amanhã é segunda, hora de acordar
A vida corre e te espera
Linda e cheirosa
Brava ou teimosa
Alegre, calada, do jeito que for
Na beleza de mulher
Que é tua e ninguém tira
Que se cansa, mas se vira
Que me alcança como mira
E me traz toda essa euforia
 
 
Henrique Inglez de Souza

A MINHA CONDIÇÃO

Fiz um poema pra você
Terminei aqueles versos do outro dia. Lembra?
De que eu seria um poeta só se você fosse a minha poesia...
Foi numa noite calada, sozinho em casa
Sem sono nem nada
 
Tudo me veio à cabeça
Parecia solidão, mas era saudade
Mergulhei num vazio estranho
Um lago que secou, tamanha a minha vontade
Quis te ver na hora, puro impulso
 
Qualquer caminho que escolhesse
Fosse lá o sonho que tivesse
O destino eram sempre os seus braços
Era isso o que eu sentia
Era você quem eu queria...
E que muito quero, sabia?
 
Me dei conta do quanto eu gosto
Do seu cheiro, dos seus beijos, do seu rosto, seu gosto
Seu corpo é quente e intenso, perdição
Traz a meiguice que me invade
Que me preenche o coração
 
Você me fisgou direito!
Me ganhou de jeito
Foi do nada, de repente...
Me deixou com vontade
Vontade da gente
 
As palavras, então, me procuraram
Uma a uma, quebraram o silêncio
Vieram dizer o que eu já sabia
Que só serei um poeta
Se você for a minha poesia
 
 
Henrique Inglez de Souza