26 de julho de 2014

EGOFAGIA

Durante a saída apressada, a mulher deu um novo esbarrão no porta-retratos pendurado na parede. Já havia virado costume obsessivo esse encontrão. Acontecia constantemente. A qualquer minuto oportuno, este cruzava o caminho dela – ou o contrário. Embora o objeto ficasse na passagem, não favorecia o recorrente acidente de percurso. Certamente havia algo de espinhento naquela esquisita relação neurótica. Devia ser proposital, uma provocação. E nem adiantou mudarem de lugar a tal moldura. Parecia atração. Por trás das frestas iluminadas, ouvia-se comentários de uns acreditando ser egofagia.
 
O impacto a fazia parar e observar a imagem brevemente. Via a reprodução de uma mulher livre de si, realizada. A fiel rainha de um brilho que somente as majestades do próprio destino são capazes de ostentar. E a bela paisagem praieira ao fundo tornava a atmosfera gloriosa, invejável. Refletia os raios de vitória presenteados pelo sol. Cenário ideal para o corpo impecável que se desenhava através da blusa fina e no bronzeado da pele lisa. Era a perfeição feminina assumindo a sua mais acurada versão. Representava um momento de ápice, de realização pessoal e emocional. Um total apogeu individual da figura sorridente capturada.
 
Nas mãos da que segurava a moldura, contudo, havia predicados demais ao pouco que sua cabeça aguentava suportar. Inveja e raiva cultivada logo deixavam os poros na forma de um suor quase seco. Borrifava a intransigência salgada que produzia com as atitudes inseguras do dia a dia. O silêncio ali mantido era até sonoro. As palavras mais sórdidas e obscuras saíam mudas a cada piscada das pálpebras carregadas de maquiagem escura. Apesar dos rápidos minutos dedicados à imagem, ela caçava detalhe por detalhe. Já sabia de cor todos eles, e penalizava-se pelo trabalho de ter apanhado o objeto do chão. Mas apanhava e o recolocava no prego.

Seus pensamentos estavam infectados pelo ódio compulsivo. Doía demais ver aquele rosto eternizando alegria por trás do vidro fino. Tinha um sorriso sem ressalvas e abusando do alto-astral. A roupa também incomodava. Inspirava beleza e leveza radiantes, exatamente o oposto de seu visual. Esta trajava-se num estilo desinteressante e apagado (e sabia disso). Dava forma ao mau hálito mimado que vinha com as colocações ranzinzas em que se especializara. Tal contraste revelava por onde corria a peleja: no terreno da admiração versus admiradora invejosa. Gerava um rasgo no estômago que deixava escorrer a acidez venenosa de quem quer se apoderar do que não lhe serve. Resultava, enfim, numa sinistra doença de mente fraca que se julga forte o suficiente.

"Você não percebe? Está se afundando mais e mais. Não adianta se prender a quem jamais voltará", tentou alertar uma prima próxima. "Supere e siga em frente, querida! É o melhor que faz! Está se acabando sem se dar conta, mas nós, que estamos de fora, enxergamos nitidamente a sua decadência. Estamos preocupados" – ambas olharam-se seriamente. Arriscou novamente: "Olha, tem um velhinho que fica na frente do salão em que faço as unhas que solta sempre uns pensamentos bonitos. Uma vez, ele me disse um que adorei, e que acho que serve para você: 'Leite derramado só atrai barata e formiga, além de causar mau-cheiro'. Ah, e tem outro: 'Daqui só saem verdades. Verdades, e algumas bobagens que a minha tolice insiste em plantar'. Sei lá, de repente, é hora de parar de plantar tolices". A mulher, porém, agiu como rocha na ventania e desconversou com um irritante falso bocejar.

(...)
 
Zelando pela saúde da filha, a mãe retirou o porta-retratos da parede definitivamente e o guardou numa gaveta. Não disse nada. Simplesmente fez, depois de observar à distância o sofrimento dela. Cansou de ver aquela tortura se repetir sem parar. Até mesmo a senhora, experiente de vida, chorava escondida. Sentia uma pressão aguda no espaço vazio deixado em seu ventre pela criança que não soube crescer e que virara a adulta perdida de volta em casa. A frágil setuagenária fingia paz aos demais a fim de estancar a agonia impotente que lhe tomava. Daí a atitude de interromper os encontrões. Um passo em falso de sua parte, que fique claro.
 
"Por que fez isso, mãe? Porra!", descontrolou-se, rebelde. "Você acha que não consigo desprezar uma merda dessa? Foda-se essa foto! É só escolher outro lugar para pendurar essa porcaria que não serve pra nada – nem enfeitar, enfeita! Ponha num canto que não fique na passagem da gente e pronto". Foi uma discussão feia. Mesmo assim, apesar do entulho afetivo despejado, a braveza afiada retera a camada mais podre. Uma porção de mal que nem câncer conseguia dar conta. Era um reflexo mínimo de amor, pois ela já havia aprendido a lição de que o diabo mora nas maçanetas e não atrás das portas trancadas.
 
Os desentendimentos arrastaram-se por uma semana completa. Exausta, a senhora recolocou o maldito porta-retratos no prego. "Problema é seu! Desisto!", desabafou. Parecia o desfecho de uma séria crise de abstinência. E foi rápido até o próximo esbarrão e o consequente ritual de sempre. Só de contar o acontecido me dá raiva daquela sofredora gratuita. Sela a mensagem que me vem à cabeça neste momento: o medo é a farra entre a preguiça e a ignorância, cuja ressaca te aprisiona em si próprio e te deixa relutante e deformado diante do espelho.
 
Resistente em admitir os próprios erros, a mulher vivia no desgastante ciclo do querer sem entender o quê, mas precisando de. Com cara amarrada, simpatia de necessidade e incompetência exposta, seu humor cambaleava. Para ela, era um fardo encarar a vistosa diferença entre a vida que levava e a daquela estampada na foto. Essa era a grande verdade por trás do nó. Mas ainda havia algo de pior: devastava mortalmente a sua alma saber que ambas eram as mesmas pessoas.
 
 
Henrique Inglez de Souza

11 de julho de 2014

ANJO ABALADO

É uma sensação indescritível. O fundo dos olhos vidrados guardava um brilho fraco. Mais ou menos como o último foco de brasa nas cinzas. Um calor incapaz de recuperar chamas intensas. E havia uma mensagem telegrafada, eu sei que havia! Vinha na mudez séria e amedrontada da expressão infantil. Um horripilante aspecto de cansaço que deformava o encardido rostinho inocente. Sem qualquer opção realizável, fiquei apenas remontando o que lhe privavam dali pra sempre. O que jamais viria. Pude sentir o impacto avassalador com o qual aquele peito tão pequeno era atingido. E tenho certeza de que ela me identificou – essa é a parte mais dolorida. Seu pedido de socorro me buscava no arregalo sem lágrimas que sustentava. Superava até a fome mal saciada com a migalha de pão velho na mão miúda. Mas de nada me adiantava a nobreza de uma divina missão sem o real dom celeste da proeza. Chorei de raiva e desespero. Embrulhou-me ver tanta magreza vestindo a alma vencida, tanto sofrimento sem cura nem fim. Aos demais, juntaram a criança e seu resto de fôlego, gasto com fé em mim. Sumiram na poeira podre que o homem é capaz de criar a si e aos seus semelhantes. Não quero e não posso continuar entre eles. Sei que jamais me esquecerei do pesadelo que vi, chamado crueldade. Imploro por Sua clemência!
 
 
Henrique Inglez de Souza

10 de julho de 2014

DUAS VERDADES

"Lutem os bravos, sigam os fortes, e que o vento empurre a aurora dos tempos! Façam uso da melhor e mais poderosa arma que carregamos, o amor", gritava o desesperado à beira da ponte dos desapegos. "Costurem as feridas e deixem as cicatrizes sangrando até secarem. Não há frio imbatível nem calor realmente insuportável. Entre a dor e a paixão está a lâmina afiada da espada que nos corta diariamente. Não se surpreendam pela agressividade das minhas palavras! Têm pontas de doçura também... O vinho preenche a alma com o teor de coragem que falta a sábios e covardes - nem a um, nem a outro. A ambos! Mente o descrente de palmas coladas que junta os pés para afirmar lealdade aos demais. Engana-se quem conta com o amparo dos braços que não saem do próprio tronco. Existem duas realidades: a do lado de fora e a que os nossos olhos criam." Ninguém fez nada. Não havia o que ser feito no curto espaço de segundos que aumentava a nossa distância em relação ao coitado. Impotentes, apenas observamos seu corpo despencar sem cor rumo ao caos que era só seu, mas que também nos levava algo de bom embora.
 
 
Henrique Inglez de Souza

1 de julho de 2014

DENSO, TENSO, INTENSO

Ela tenta fugir de mim, mas eu sempre dou o meu jeito e descubro onde está. Hoje de manhã, por exemplo, escolhia frutas e verduras com você, na quitanda de costume. Foi a surpresa boa do dia, e aproveitei ao máximo. Parei do outro lado da rua, meio atrás de um poste, só para admirá-la de longe na sua essência de mulher desarmada. Sem maquiagem, sem produção, o brilho natural lhe arranca ainda mais encanto. Provoca a minha vontade desenfreada, o meu te-quero-tanto. Mas, então, por um instante, achei que tivesse me visto. Ajeitou o cabelo de maneira tímida e olhou para o lado, em minha direção. Temi perder a espontaneidade doce da ocasião. Todavia, logo voltou ao que contigo fazia, tranquila e sem perigo. Era só o desejo me pregando gracejo a fim de lembrar que estava atrasado para a vida... Não dei a mínima a isso! Ignorei e continuei ali. Nada superava a deixa de saborear um sentimento tão tenso quanto intenso. Fiquei imóvel, entregue a ela e à sua crua leveza. Esperei saírem juntas, você e a sua beleza.


Henrique Inglez de Souza

30 de junho de 2014

DESGRAÇADO

"Você acha que conhece o sentido de 'desgraçar a vida'?", disse ao bandido que o abordava com um revólver. Irritado, o marginal esbravejou: "Cala a boca, porra! Tô pouco me fodendo pra isso. Dá aqui logo essa merda, senão te meto uma bala". Fazendo gestos discretos, a vítima arrancou a correntinha que usava e disse: "Por mim, tudo bem! Não me importaria em morrer de novo". Ambos estavam na frente de um bar, onde ninguém conseguia acreditar naquela total falta de senso de perigo. O senhor do caixa chamou a polícia escondido. "Tome, pegue o pingente", esticou o braço, abrindo a mão. O ladrão ameaçou apanhar, mas hesitou. Perdeu a firmeza, ficou visivelmente agitado. O estranho homem deixou o objeto cair no chão de propósito e partiu tranquilamente. Partiu como o condenado que sorri indiferente à frieza do olhar de seu carrasco antes da execução. Quando os policiais apareceram, o criminoso estava sentado ao lado da arma, que não usou. Tentava conter as mãos trêmulas e repetia: "eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele! Eu vi nos olhos dele..." Foi levado embora em choque. A correntinha permaneceu no chão por dias.
 
 
Henrique Inglez de Souza

28 de junho de 2014

SEM REMETENTE

Voltando para casa de cabeça quente, avistou um envelope jogado na calçada. Estava próximo a uma lixeira. Sua aba balançava ao vento fraco que passava na hora, razão suficiente para a curiosidade agir. Havia o recado de alguém para sei lá quem. Achou a mensagem meio piegas, mas acabou guardando o papel num lugar especial. Dizia o seguinte: "o mundo não são as mil maravilhas que uns pregam a todo custo, mas também não é o lugar podre e fétido do discurso de outrem. É um pouco dos dois. Tem dor, tem paixão, sabor e ilusão. É um misto de alívio e de falta de chão. Tem calor e rasteira, rancor e perdão. Então, cabe a você usar a sua independência, a sua plenitude como o indivíduo pensante que é, e escolher por qual caminho quer seguir. A felicidade não é uma região distante e inacessível que, uma vez encontrada, fará de tudo perfeito. Quem persegue isso não vê direito. Ignora as alegrias diárias que, de fato, fazem alguém feliz. Cuidado, pois o banal está aí para nos confundir e enganar! Então, se o coração partir e a alma sangrar, lembre-se de considerar a cura, pois o tempo sutura. Se a mente adoecer, aqueça a alma onde paira o prazer e a calma. Remédio tem, mesmo que não acredite em si mesmo ou em ninguém. Conte comigo sempre! E não precisa nem me chamar... Eu estarei junto de você em todas as suas boas atitudes".
 
 
Henrique Inglez de Souza

24 de junho de 2014

A MOÇA NO RETRATO

Durante a saída apressada, deu um novo esbarrão no porta-retratos pendurado na parede. Já havia virado um costume obsessivo esse encontrão. Acontecia constantemente. Devia até ser proposital, uma provocação. O impacto a fazia parar e observar a imagem brevemente. Inveja e raiva cultivada deixavam seus poros na forma de um suor quase seco. Borrifava a intransigência salgada que produzia com as atitudes inseguras. Apesar dos rápidos minutos dedicados, caçava detalhe por detalhe. E se penalizava pelo trabalho de ter apanhado o objeto do chão. Mas apanhava e o recolocava no prego. Doía demais ver aquele rosto eternizando alegria por trás do vidro fino, com um sorriso sem ressalvas e abusando do alto-astral. A roupa também incomodava. Estampava beleza e leveza radiantes, o oposto do visual dela, carregado e apagado. Sua cabeça vivia no desgaste cíclico do querer sem entender o quê, mas precisando de. Com cara amarrada, simpatia de necessidade e agonia latente, seu humor cambaleava. Era um fardo encarar o contraste entre a vida que levava e a daquela pessoa na foto. Devastava ainda mais a alma da moça saber que ambas eram as mesmas.
 
 
Henrique Inglez de Souza