10 de outubro de 2014

BRINCO DE ARGOLA

Sob o teto seguro da família, um casal de irmãos – ela, quatro anos a mais. Dois corações jovens cheios do mesmo sangue, e amarrados por um afeto incendiário não dito. "Eu sei que você fica me espiando escondido toda vez que eu vou me trocar", disse a mulher, num confuso tom de repreensão e provocação. O baque da surpresa engessou o rapaz. Constrangido, sua única reação foi corar-se silenciosamente na aflição que lhe pulsava com agitação pelas veias. Atrapalhou-se entre o desconforto cortante e a tentação do proibido, remoendo a certeza que nunca se desgruda da dúvida. Inevitável, o perrengue emergiu ali. A irmã terminava de se arrumar diante do espelho, pelo qual exibia uma expressão falsamente séria. E, ao se virar, desferiu um perturbador golpe. Arremessou o brinco da orelha esquerda no peito dele, junto com um malicioso "mas até que eu não ligo...". Vagarosamente deixou o cômodo em que estavam, como se nada tivesse acontecido.
 
 
Henrique Inglez de Souza

20 de setembro de 2014

TUDO BAGUNÇADO

A bagunça sobre a escrivaninha estende-se pelo quarto. Ganha o chão, corredores e se espalha pela sala. A bagunça manifesta-se de forma contínua, quase sem fim. Fico admirado com a sua rápida multiplicação. Quanto mais tento contê-la, mais parece que aumenta. Acontece nos instantes vagos de distração profunda. É uma batalha perdida querer dominá-la e extingui-la. A bagunça já faz parte do cotidiano. Virou meu atual endereço, o lugar onde vivo. É o que sempre me dizem e no que acredito piamente. As pessoas horrorizam-se, dão conselhos, reparam, mesmo que eu peça o contrário. Têm lá alguma razão. Porém, é na aparente falta de critério que me encontro. Até apelidei o murundum de organizado. Os outros não entendem, discordam, mas eu não ligo. Acostumei-me de tal forma que, sem ela, penso na minha vida virando um caos total. Ando até com uma opinião diferente. Já não me incomodo tanto assim. Digo isso do fundo do meu coração, onde está a outra bagunça, a que você deixou quando me largou de vez. Dessa, sim, não faço a menor questão, e me esforço diariamente para arrumá-la em definitivo. É complicado, me toma um tempão! Reclama da zona em casa quem vira as costas e vai embora. Só que esses são os mesmos que jamais verão a minha real bagunça. Pois somente os que têm coração sabem o quão pandemônico é tê-lo partido em migalhas incorrigíveis de amor.
 
 
Henrique Inglez de Souza

16 de setembro de 2014

ESSE DESCONTROLE IMPERATIVO

Jamais soube o sentido de estar hipnotizado. Inventei algumas possibilidades, mas não é a mesma coisa. Isso só mudou num pedaço de noite recente. Estava em um bar com o pessoal, quando avistei uma loira a duas mesas de distância. Tinha os cabelos cortados na altura do pescoço, um sorriso meio tímido e ar tranquilo. Entretida com as amigas, não me notou, e provavelmente nunca saberá do que foi capaz de causar em mim. Sua blusa azul-marinho trazia um generoso decote, que ganhava ainda mais expressão graças aos seios palidamente lindos. Eles possuíam um volume sem exagero nem falta, perfeito. E, reprimidos pela pressão das alças, me arranhavam a libido com uma precisão insuportável. No descontrole em que caí, mal conseguia me mexer. Os peitos tocavam-se delicadamente, gerando uma sombra bem escura e delineada. Uma obra saída, sem dúvida, das mãos hábeis de um anjo artista. Como ignorar ou não ser indiscreto? O mínimo de consciência que enfrentava o egoísmo de meus olhos desabava aos pés do desejo imperativo. Eu queria mais do que a sanidade podia cobrir. Só recuperei as faculdades mentais depois de a mulher ir embora - inquieto e com a taquicardia da intensidade de quem esteve em transe.
 
 
Henrique Inglez de Souza

13 de setembro de 2014

ESCADARIA DE OSSOS

Um dia vamos enterrar nossos pais, nosso passado. Libertaremos os amores mal resolvidos e as frustrações também. Juntaremos o que não nos serve mais em uma caixa de papelão da cor do rancor. Lacraremos o imbróglio como uma encomenda endereçada ao esquecimento. Caberão ali as lágrimas despejadas e as que conseguimos esconder. Chegará o momento em que os sonhos deixarão o sono dormir em paz para ganharem o mundo dos ambulantes, da realidade firme e pisada. E a piada, juro, só terá graça se a tragédia vier. Só daremos risada se for em alto e bom tom, se nos arrancar o que há de mais sórdido. A pureza, oras, também produz a sua sujeira, que acumula e recalca! Ela decalca nossa personalidade, e assim disfarçamos a dor que agarra as vísceras. Quem sabe teremos as respostas que buscamos; quem sabe acertaremos as perguntas às respostas que temos. Essa incerteza danada ainda manda no futuro. Mas seguiremos distribuindo miúdos... E diante de nossos ossos expostos, pensarão que estamos mortos. A gente, entretanto, saberá que é apenas descanso redobrado.


Henrique Inglez de Souza

12 de setembro de 2014

MAIS QUE 50 PRATAS

Na viagem de volta, enquanto me acomodava no ônibus, reparei uma garrafa de água vazia dentro de uma sacola plástica, junto com uma revista enrolada. Estavam presas pelo elástico da parte traseira da poltrona seguinte à minha, usado normalmente para esse tipo de coisa. Somente depois de uma hora de viagem voltei a colocar meus olhos naquilo. Sem ter o que fazer nem música para ouvir, me rendi à revista. As páginas traziam mais tolices que informação, mas como passatempo serviam. Eu andava entediado. Entediado de forma ampla e aflitiva. A vida ia bem, mas parecia estacionada numa mesmice corrosiva. Portanto, qualquer coisa que me trouxesse distração, breve que fosse, era bem-vinda. Todavia, algo extra aconteceu. Uma nota de 50 reais despencou do meio das folhas. E antes de colocá-la na carteira, encontrei um manuscrito a caneta na cédula. Dizia algo que ficou remoendo em meu estômago por dias: "As chances boas na vida aparecem com a mesma frequência que uma surpresa como esta cai em suas mãos. A diferença é que elas transformam e duram muito além do dinheiro. A mesma curiosidade e disposição que te levaram a encontrar essas 50 pratas podem te empurrar nas oportunidades. Basta agir!".


Henrique Inglez de Souza

9 de setembro de 2014

PALAVRAS MUDAS

Você duvida de uma verdade que é absoluta. Mas existe um canto secreto, um reduto, onde somente nós vamos. Ninguém mais sabe como chegar. Fica perdido em nossos desejos – somente neles! Lá os beijos têm sabor de safadeza insana e a imagem melada que me veio agora. Ganham razão na total falta de noção, nos horários menos previsíveis. São demorados e complexos, trazem perdição. Fazem paradas estratégicas e cheias de texturas molhadas, que provocam labaredas irremediáveis. Arrepiam o seu cangote, viram os meus olhos. E é imerso nesse ambiente que conhecemos o significado das palavras. Elas vêm e vão sem produzir um som sequer. Saem mudas, mostrando finalmente a sua real imensidão. Letras e impulsos combinam-se em mordiscos desconcertantes, grafados no calor insuportável das palmas das mãos. Esse é um jardim completamente silencioso e inacessível aos outros. É o lugar em que reinam o tato dos corpos e os segundos impulsivos do jorrar que a entrega produz. Não tente reagir. Essa vontade não tem dono nem controle.
 
 
Henrique Inglez de Souza

23 de agosto de 2014

ESBARRÃO DANOSO

Fui dormir com o seu rosto na memória. Não pude esquecer a graça que me busca quando mostra o sorriso que tem. Me prende e me leva diretamente aos seus olhos, que misturam mistério e ternura por trás da atenção que os afazeres impõem. Já deve ter reparado meu embaraço ao te fazer o pedido. Perco-me na aflição de tentar estender o nosso contato e de te dar uma satisfação imediata, objetiva. Nem imagina o calor que me causa notar parte do seu cabelo escapando da presilha, desconfigurando o arranjo original. Os detalhes da sua espontaneidade... Sortudo são os que podem. Nem mesmo o ar de cansaço e o fim de dia movimentado roubam-lhe a doçura. Sempre volto para casa com alguma tristeza. Sinto por não termos nada, além dos rápidos minutos sem paz. Minha vontade é a de te dizer coisas as quais sei que jamais ouviu. Queria te levar para uma tarde só nossa, em um dia que nos conduzisse noite adentro. Me dói essa distância. Me corrói esse desejo que não me larga nunca, desde a primeira vez em que esbarrei a distração em você.
 
Henrique Inglez de Souza